• Percurso da Artista | Ativação 4: Encontro Extensões da Memória

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Crédito fotográfico | Anderson Astor

Encontro da artista Maria Ivone dos Santos com Ana Dreyer, Ana Maria Dalla Zen, José Francisco Alves e Gustavo Balbela.

Dia 29 de agosto de 2025, às 18h, na Sala Araucária, Centro Cultural da UFRGS.

Mediação: Maria Ivone dos Santos.

Duração estimada: 1h30.

Apresentação

Partindo da exposição “Performance do arquivo: extensões”, em cartaz no Centro Cultural da UFRGS até o dia 10 de setembro, a artista Maria Ivone dos Santos e os convidados Ana Dreyer, Ana Maria Dalla Zen, José Francisco Alves e Gustavo Balbela propõem um exercício crítico de escavação da memória desse entorno. Relacionada a obras que integram a exposição, como “Endereçamento: vendo o entorno” (2025), que referencia o quiosque art déco presente no parque, o encontro busca apresentar e problematizar a dimensão pública e os usos dos “campos da redenção” ao longo do tempo, levantando tópicos relevantes aos processos de sua ocupação pela universidade e pela municipalidade.

“Endereçamento: vendo o entorno” (2025) faz parte da pesquisa “As Extensões da Memória: a experiência artística e outros espaços”, desenvolvida por Maria Ivone na UFRGS desde 2004. A partir da fotografia, do vídeo, da instalação e de publicações, o projeto analisa de que modo a arte penetra e questiona as relações de poder presentes nos contextos urbanos e ambientais, públicos e privados. Inserem-se nesse contexto também os cartazes “Enunciados em trânsito: três questões” (2007/2025), que têm gradualmente se espalhado por diferentes locais de Porto Alegre, por meio da colagem em tapumes. Neles lemos as perguntas: “O que foi sonhado?”, “O que foi construído?”, “O que resiste ao tempo?”; e “O que diz a água?”, “O que diz a terra?”, “O que dizem as cinzas?”.

Resumos

Lugar, Espaço e Entorno: as camadas do tempo no Centro Cultural da UFRGS

Ana Dreyer1

Inaugurado em 1926 como sede do Instituto de Química Industrial — fruto de um projeto iniciado entre 1922 e 1924 — o edifício que hoje abriga o Centro Cultural da UFRGS está situado no coração do Campus Centro, em frente ao Parque Farroupilha (Redenção). Embora separados pela Av. Luiz Englert, Campus, prédio e parque sempre compartilharam um mesmo território simbólico, compondo, desde o início, um espaço integrado de circulação, encontro e contemplação. Ao longo de sua trajetória, o edifício abrigou ensino e pesquisa, até que, com a transferência do Instituto para o Campus do Vale nos anos 1980, passou a sediar atividades administrativas e docentes. Entre 2015 e 2018, um cuidadoso processo de restauração revelou as camadas históricas do prédio, preservando elementos originais e reapropriando detalhes arquitetônicos antes ocultos por reformas sucessivas. A exposição de Maria Ivone dos Santos — artista plástica, professora e pesquisadora — dialoga com essa memória silenciosa. Sua produção, voltada à relação entre tempo, espaço urbano e materialidade do lugar, encontra eco nas paredes que guardam vestígios do próprio percurso do edifício. Nesse encontro entre corpos e pedras, arte e arquitetura se entrelaçam, oferecendo ao público uma experiência sensível de tempo, lugar e história.

Imagem: Fotografia aérea, década de 1920, com o início da implantação das vias urbanas, o campo da Redenção e, na parte inferior, prédios do atual Campus Centro da UFRGS. Fonte: base de dados digital SPH.

A Redenção, de potreiro descampado a coração verde de Porto Alegre

Ana Maria Dalla Zen2

Analisa o embrião do Parque Farroupilha, que surgiu em 1772, quando foi desapropriada pelo governo português uma fazenda de gado, dentro da qual havia se desenvolvido o povoado então denominado Porto dos Casais. Sendo uma várzea alagadiça e descampada, não entrou na distribuição de terras aos colonos, permanecendo na propriedade da coroa portuguesa como rossio (pasto para o gado). Em 1773, o governo da Capitania se mudou para a povoação e teria sido construído um valo e um portão, passando a ser chamada de várzea do portão. Em 1807, a Câmara de Vereadores requereu para si a propriedade da várzea, concedida em 24 de outubro de 1807 pelo governador da capitania, Paulo José da Silva Gama.  Ao longo do século XIX, com o crescimento da população, houve tentativas de dividir a várzea em lotes para edificação, mas nenhuma prosperou. O espaço continuou livre e em uso como logradouro público. Manteve-se como um campo aberto, com cerca de 70 ha, vegetação composta basicamente por gramíneas, envolvido cada vez mais pela urbanização que se estendia e o cercava pelos lados. Em 1870, foi denominada de Campo do Bom Fim, após a instalação da capela do Senhor do Bom Fim em um terreno fronteiro a ele. A primeira subtração de seu espaço se deu com a construção de um grande prédio, em 1882, que passou a abrigar a Escola Militar da Província do Rio Grande do Sul. Em 1884, foi denominado de Campo da Redenção, por se constituir no espaço das lutas abolicionistas que deram origem a uma trajetória do parque como um território de liberdade, inclusão e diversidade, que o caracteriza até hoje.

Imagem: Fotografia do Campo da Redenção, sem data, c. 1901. À esquerda, o velódromo. Na lateral do campo, junto à Av. Redenção, a arena para touradas e o bairro Cidade Baixa. No limite dos fundos do campo, a Av. José Bonifácio. Fonte: Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo.

Os 90 anos do Parque Farroupilha

José Francisco Alves3

O Parque Farroupilha é o espaço público coletivo mais icônico e representativo do melhor espírito porto-alegrense. Foi oficialmente criado em 1935, por Decreto, com a realização da grandiosa Exposição do Centenário Farroupilha, o maior e mais fantástico evento proporcionalmente já realizado na cidade. Foi um momento incrível de arquitetura, arte (exposições), espetáculos, lazer e economia (indústria e agropecuária). Mas a história do local é longa, desde princípios do século XIX, passando pelos projetos e espaços construídos no início do século XX até ser moldado a partir de 1935, sendo concluído o que temos no parque, como percurso e recanto, em especial na década de 1940. A par de tudo o que significa o espaço, com a sua denominação trocada, nunca abandonada e mais usada até hoje (“Redenção” como resultado das campanhas abolicionistas), é o parque um espaço cívico, monumental e afetivo. Para a nossa História da Arte, foi o local das primeiras ações de arte contemporânea ao ar livre de Porto Alegre, com as atividades e registros do Curso “Proposições Criativas”, orientado por Julio Plaza em 1972.

Imagem: Parque Farroupilha e Porto Alegre, vista aérea, década de 1960. Fonte: Redes Sociais.

Testemunhas, amostras e deslocamentos: Formas de esculpir o pensamento

Gustavo Balbela4

“Inquérito de Testemunhas Concretas” é uma investigação poética desenvolvida durante minha pesquisa de mestrado, sob orientação da professora Maria Ivone dos Santos, que se debruça sobre túneis, viadutos e elevadas construídas na cidade de Porto Alegre durante o período da ditadura civil-militar (1964-1988). Atentando à ressonância geográfica entre essas estruturas e as tematizadas por Santos, bem como à sua influência metodológica em minha poética, esta apresentação articula o testemunho, a amostra e o deslocamento como formas espaciais de pensamento. Como em sua obra “Quiosque” (2023-2025), em meu trabalho, amostras da cidade são tomadas como testemunhas concretas das transformações no espaço urbano: o que resiste ao tempo é mobilizado como amostra do que foi construído para investigar aquilo que foi sonhado. Localizar testemunhos, recolher amostras, deslocá-las para o espaço expositivo: o corte, o trânsito e a escala aparecem aqui como formas eminentemente espaciais de produção de um estranhamento crítico. Assim, a singular atenção de Santos ao espaço e a suas formas é enfatizada aqui como forma de ativar “Performances do arquivo”.

Imagem: Viaduto Imperatriz Leopoldina (2021), de Gustavo Balbela. Fotografia.

  1. Mestre em Planejamento Urbano e Regional pelo PROPUR/UFRGS, atua como arquiteta e urbanista da UFRGS no Setor de Patrimônio Histórico. ↩︎
  2. Professora titular aposentada da FABICO/UFRGS, curso de Museologia, área de Patrimônio e Cultura. Graduada em História, mestre em Educação e doutora em Comunicação. Integra o Coletivo Preserva Redenção. ↩︎
  3. Doutor em História, Teoria e Crítica de Arte pelo PPGAV/UFRGS, atua como historiador da arte, curador e pesquisador. ↩︎
  4. Artista visual, mestre em Artes Visuais pelo PPGAV/UFRGS, doutorando na Universidade de Norwich. ↩︎