

Performance do arquivo: extensões
O que resiste ao tempo? O que resistiu? O que resistirá?
Diferentes camadas de tempo, deslocamento e criação se sobrepõem e se tensionam na exposição que Maria Ivone dos Santos apresenta no Centro Cultural da UFRGS, em Porto Alegre. Ao ser convidada a integrar o projeto Percurso da/do artista, que homenageia professoras e professores do Instituto de Artes da universidade, ela escolheu revisar a trajetória que delineou ao longo de 30 anos de atividades de pesquisa. A exposição busca evidenciar um pensamento e uma prática que articulam estudo, docência e criação artística.
O reexame não se limita àquilo que em geral se entende por retrospectiva. O olhar se volta para o passado, abraça, sim, um viés memorialista, mas busca ultrapassar a mera celebração do já acontecido. Os momentos mais remotos são percebidos, antes de tudo, em sua contínua promessa de retomada. Aparecem como algo disponível, passível de reinterpretações e atualizações. Tal qual os processos mnemônicos, em que as lembranças constantemente se reinventam e se modificam, o passado se refaz a cada gesto de recordação.
Sob o título de Performance do Arquivo: extensões, a montagem tem como ponto de orientação e vertigem o arquivo que abarca não apenas as últimas três décadas de produção de Maria Ivone, mas inclui sua experiência inicial em gravura, ainda anterior. Com sede física em dois cômodos contíguos, nos fundos da casa da artista, em Porto Alegre, o arquivo vem passando por um rigoroso processo de sistematização desde 2022 – o que alcança também a configuração de sua versão online: https://arquivo.mariaivonedossantos.art/
Estimulante fonte de pesquisa, não apenas para a própria artista, mas para todo um corpo de críticos, historiadores e teóricos interessados em arte contemporânea, o arquivo combina acervos documental, bibliográfico e artístico. O foco é vasto, mas mira sobretudo nos contextos brasileiro e sul-rio-grandense dos anos 1980 até o presente mais recente. O escopo de materiais abarca desde anotações, esboços e projetos até convites, catálogos e fortuna crítica, passando por fotografias de registro, correspondência e as obras mesmas, devidamente catalogadas. A maior parte desses acervos diz respeito à trajetória de Maria Ivone, mas não deixa de contemplar sua rede de afetos, incluindo outros artistas, curadores, pesquisadores e instituições.
Na empreitada de revisão do percurso da artista, o arquivo é assumido como matéria viva, maleável. Alguns trabalhos são reapresentados de maneira inédita, nunca ensaiada. Casa, objeto construído durante seu período de estudos na França, entre 1987 e 1994, volta como ampliação fotográfica. Trata de evidenciar questões que estavam e seguem ativas no pensamento de Maria Ivone, em especial seu interesse pelas diferenças de escala: o mais íntimo, aquilo que cabe na palma da mão, desdobra-se no mais extenso. O pequeno objeto, fotografado, emula uma arquitetura habitável, quase uma fortaleza.
Outros trabalhos, inéditos, criados especialmente para esta ocasião, reportam-se a experiências anteriores, sem chegar a repeti-las. Funcionam antes como um eco. Concebidos em 2007, os lambes em preto e amarelo, cartazes com perguntas sobre nossos desejos coletivos no espaço urbano, retornam colados nas paredes do Centro Cultural. Mas revivem também, em amarelo e preto, de modo avulso e portável. Vêm com novas perguntas e em dimensão mais enxuta, convidando os visitantes a carregarem os lambes e a decidirem, eles próprios, outras possibilidades de apresentação e colagem. As questões estampadas sobre o papel explicitam dúvidas concernentes à emergência climática que se tornou incontornável: “O que diz a água?”, “O que diz a terra?”, “O que dizem as cinzas?”.
Se o tempo se reorganiza nesse exercício, algo da mesma natureza ocorre no espaço. O percurso da artista, de modo pontual, não exaustivo, reage e dialoga com a configuração da Sala Laranjeira, no segundo andar do Centro Cultural da UFRGS. Cindida por uma quase parede, com porta e janelas sem esquadrias, sempre abertas, a peça acolhe no primeiro ambiente os trabalhos temporalmente mais remotos na trajetória de Maria Ivone. São os objetos concebidos entre o final dos anos 1980 – aos tempos da sua formação em joalheria, em Estrasburgo, na França – e seu retorno ao Brasil, com o início do trabalho como professora-pesquisadora na UFRGS, a partir de 1998. As joias, feitas para serem performadas no corpo e transportáveis em uma maleta, também ela evocação de uma arquitetura possível, são acessadas agora sob uma vitrine, numa mesa-plataforma, mobiliário-obra que inclui nichos e gavetas, atravessando a sala.
No segundo ambiente, a exposição extravasa o próprio Campus Central. Num jogo entre espaços internos e externos, a montagem pergunta-se sobre o entorno. Alcança o Parque Farroupilha, do outro lado da rua, visível através das janelas. Traz para dentro, em formato de maquete e vídeo-carta, o quiosque art déco fixado há quase um século, na antiga Redenção. A instalação, intitulada Endereçamento: vendo o entorno (2025), insere-se no projeto Extensões da memória, pesquisa que a artista desenvolve há mais de 20 anos na UFRGS, problematizando, a partir de observação ativa, os modos de desenvolvimento urbano, a transformação da paisagem e o apagamento de suas memórias.
Tempo e espaço, palavra e imagem, matéria e memória. Combinados e sobrepostos, em continuado deslocamento, os fundamentos do arquivo são ativados pela imaginação e pelo trabalho da artista. Projetam-nos num exercício de questionamento que reverbera os dela mesma: não só o que se vê e como se vê, mas também aquilo que não se vê. Por que não vemos? Por que esquecemos? Que caminhos são esses?
Eduardo Veras, curador.
Outono de 2025.





Material de apoio


Serviço:
Percurso da artista | Maria Ivone dos Santos
Performance do arquivo: extensões
Visitação: até 10 de setembro, de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h
Sala Laranjeira | Centro Cultural da UFRGS (Rua Eng. Luiz Englert, 333 – Campus Centro)
Entrada franca